sexta-feira, 14 de março de 2008

FLORES QUE NÃO VIVEM MAIS

- Boa tarde! Flores para Dona Mirassol.
- Ah... sou eu mesma meu filho. Na verdade as flores não são para mim. São para minha filha que vem de São Paulo me visitar.
Aquela senhora tão pequena transmitia uma alegria sem tamanho ao falar. Seu cabelo impecavelmente penteado e preso e seu vestido de chita lembravam muito minha avó.
Surpreendentemente enquanto tirava o dinheiro de sua bolsinha que abria e fechava com o entrelaço de duas bolinhas ela percebeu que eu usava um MP3 player.
- Gosta de música meu filho?
- Gosto sim senhora!
- Não vou me atrever a perguntar sobre seu gosto musical, mas não posso deixar de fazer uma observação. A juventude de hoje não sabe o que é boa música e bons cantores. Você está muito apressado?
- Na verdade estou entrando no horário de almoço. É minha última entrega antes de comer.
- Aceita almoçar comigo?
- Mas a senhora nem me conhece, dona Úrsula e meu patrão não vai gostar de saber...
- Fique tranquilo! Conheço seu patrão tempo suficiente para saber que ele não contrata qualquer um. Faço questão.
O cheiro de comida vindo de dentro da casa era irresistível. E eu gostei da dona Úrsula. Resolvi aceitar.
- Sente-se aí...vou colocar mais um prato na mesa e já já comemos. Comida simples, mas espero que você goste.
- Claro dona Úrsula! Tenho certeza que está uma delícia...
Não foi difícil notar uma peça muito rara em sua sala. Ao lado da TV uma vitrola muito antiga e uma pequena coleção de discos de vinil.
- Eu prometo não aborrecer você rapaz. Aliás qual é mesmo seu nome?
- Leonardo...mas a senhora pode me chamar só de Leo.
- Muito bem, Leo - enquanto separava com carinho um disco da coleção:
- Você certamente não ouviu falar de Wilson Simonal.
Eu olhava fixamente a capa daquele LP :
- Realmente...não ouvi falar.
Ela colocou aquele disco contra seu peito respirou fundo e fitando-me começou:
- O que boa parte desses artistas gostariam de ser hoje expondo sem limites sua vida pública e fazendo de tudo para aparecer, quando não são seus equívocos que os expoem, Simonal foi só por seu talento. Ele tinha voz, carisma e talento naturais. Você vai perceber um pouco disso ouvindo esse disco. Alías esse disco foi grandioso na minha opinião.
Eu mal acreditava no que ouvia. Dona Úrsula dominava completamente as informações daquele artista.
Colocou o disco enquanto almoçávamos: "A nova dimensão do samba" de 1964.
E realmente, apesar do tempo, aquelas músicas eram simplesmente demais.
Segundo ela Nanã e Lobo Bobo foram os grandes sucessos daquele disco.
Mas o que me impressionou mesmo foi como a vida daquele cara virou de uma hora para outra por conta de tanta inveja, preconceito e uma seqüência incrível de equívocos e injustiças contra ele. Afinal um cantor negro talentoso e bem-sucedido incomodava muita gente em sua época. E para completar foi muito triste saber que Simonal acabou morrendo sem saber que se provou o óbvio: sua inocência.
Saí da casa de dona Úrsula com muita curiosidade sobre mais informações sobre aquele artista e estava, no fim-de-semana, disposto a pesquisar mais coisas na Internet.
Mas saí também pensando o quanto nossa vida é tão frágil e tão sujeita a acontecimentos ruins, sejam por nossa inconseqüência ou seja por inveja ou preconceito de outras pessoas.
E que a justiça e a verdade são invencíveis, mesmo que sua batalha seja longa.