Depois de receber os cumprimentos dos últimos ouvintes tirou do bolso o lenço branco; enxugou a testa e a nuca; afrouxou lentamente o nó da gravata enquanto descia a escada aguardado calmamente pelo responsável por fechar o auditório.
Parou.
Olhou as cadeiras vazias lembrando-se das expressões de cada espectador.
Como se voltasse no tempo, viu aquela senhora de meia-idade enxugando as lágrimas enquanto segurava uma foto. A dor daquela mulher parecia um adorno triste em seu semblante. Lembrou muito sua nora.
- Os equipamentos vão ficar, senhor? - A voz o interrompeu da lembrança e quando esboçou responder o celular tocou.
Procurou pelos óculos até perceber que os estava usando. O celular tocava cada vez mais alto e, embora não conhecesse, insistia em lembrar de quem seria aquele número:
- Alô.
Ouviu a voz de uma moça que confirmou seu nome, o de seu filho, nora e neto.
Hesitou um pouco. Tirou os óculos e sentou-se vagarosamente no último degrau do palco do auditório.
Outra vez o lenço. Agora para tapar os olhos enquanto ouvia aquela voz sem nome.
Olhou para o relógio. Nem prestou atenção nas horas.
- Quando foi isso? - perguntou anestesiado pelo notícia.
A moça gentilmente prestou todas as informações e o esperou anotar o endereço.
Ao desligar o celular, já tinha os olhos marejados.
Olhou firme para a porta.
O senhor que o aguardava pareceu pressentir a tragédia. Aproximou-se lentamente e sem dizer nada estendeu a mão direita para apoiá-lo a se levantar.
Saiu do auditório e chegou ao estacionamento com as chaves do carro na mão.
Sem ainda acionar a ignição, escorou a cabeça no volante e chorou silenciosamente.
Outra vez toca o celular:
- Álvaro - a voz inconfundível da irmã - já estou no hospital. Estamos esperando você. Força meu irmão!
- Ok...
A voz custou sair.
Ligou o carro, respirou fundo e foi para o hospital.
Enquanto dirigia, as lembranças do filho vinham em uma seqüência desordenada. Parecia que os acontecimentos surgiam na mente de forma contrária: o nascimento do neto, o casamento do filho, a despedida da clínica de recuperação... tudo vinha misturado.
O motorista que estava atrás buzinou duas vezes até que Álvaro acordou das lembranças e viu que o sinal tinha ficado verde.
Como de costume, antes de sair do carro, já no estacionamento do hospital, tentou desligar o som do carro quando percebeu que nem o havia ligado.
Olhou para as mãos meio trêmulas, saiu do carro e seguiu rumo à recepção.
Pegou o celular:
- Leo?
- Sim, senhor Álvaro!
- Preciso que você, amanhã, abra a floricultura para mim, ok?
- Ok, mas algum problema?
- Não sei ainda... mais tarde te ligo novamente. Tenho que desligar.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
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